Os cadáveres da Egyptair são ainda mais macabros

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Corpos encontrados pela fragata grega tinham salva-vidas

Os dois cadáveres da Egyptair encontrados horas depois do desaparecimento do voo MS804 são ainda mais macabros do que se pensava. As autoridades gregas reportavam pelas 17h21 de quinta-feira, 19 de Maio, que dois corpos e alguns destroços tinham sido encontrados. Uma fragata grega deu o sinal.

Só que não eram destroços do avião. Os corpos, afinal, eram “apenas” de duas pessoas, mais duas, que tinham morrido afogadas no mar Mediterrâneo, há dias, no que se estima ser mais uma tragédia de refugiados, da qual não se deu conta…

Aliás, não é nova a cena. Os turcos estão na praia e, de vez em quando, o cadáver enrola na areia, como aconteceu em Janeiro passado.

A forma como os corpos dos foragidos ficaram em segundo plano na nossa preocupação colectiva é assustadora. Se fossem do malogrado avião, as notícias e as nossas almas gritariam um “pobrezinhos”. Mas como são “só” de “mais dois” potenciais refugiados, passamos à frente, pomos os cadáveres no lixo e seguimos – o que interessa, esta semana, é saber dos outros cadáveres com mais pedigree.

Em Garabulli, na Líbia, ainda agora aparecem corpos de homens, mulheres e crianças, à vista de pescadores e famílias que passam o tempo livre a ver o mar.

Claro que o acidente do voo da Egyptair é preocupante. Claro que todos estamos preocupados com esta maldita moda nova dos aviões explodirem no ar sem razão aparente, mais ainda quando se suspeita que a origem da desgraça possa ter sido uma bomba. É natural que o elemento “ar” nos assuste mais do que o “água”: afinal sempre nadamos, mas voar ainda não sabemos.

No entanto, é arrepiante imaginar que, pelo menos, 1361 corpos podem dar à costa a qualquer momento, porque desde Janeiro é este o número da mortandade. Ou seja, tantos mortos como o equivalente a 20 aviões da Egyptair desaparecidos sobre o mesmo mar.

Se houvesse 20 aviões desaparecidos desde Janeiro, porém, saibam que já não haveria mais nenhum a cair por causa da guerra, das bombas e das armas. Como os que morrem estão nos barcos de borracha, os cadáveres que se lixem.

JOÃO VASCO ALMEIDA – Jornal Tornado