‘Não tinha nenhum santo’: por que a declaração do governador do AM é pavorosa?

“Não havia ali nenhum santo”, disse o governador do Amazonas sobre o morticínio em um presídio em Manaus.

A linguagem tem função política, e ela determina quem tem direito à vida inclusive na hora de morrer. Luto, dignidade, memória, história são também privilégios para quem já não vive ou perdeu alguém. Deveriam ser direitos, e isso diz muito sobre nossas assimetrias políticas.

No morticínio em Manaus, impressiona que um presidente da República tenha visto ali um “acidente” e o governador tenha tentado minimizar o episódio lembrando não haver naquelas cenas nenhum santo.

Pois se um governador diz que algumas vidas valem mais que outras, com o argumento de que ninguém ali não há ninguém que mereça ser salvo, a guerra de todos contra todos é declarada para além das celas e grades onde a guerra já opera entre facções e nós, ingenuamente ou não, imaginamos não ter nada com isso. É como se a autoridade transformasse em política pública a máxima atribuída a Dostoiévski: se Deus não existe tudo é permitido (a frase em Os Irmãos Karamazov não é bem essa, mas assim ficou conhecida).

Se a santidade é o critério para definir que vida deve ou não ser preservada ou respeitada, inclusive na hora da morte, podemos todos nos preparar para ataques preventivos.

Afinal, não há santo na facção assassinada no presídio.

Não há santo na facção que promoveu a carnificina.

Não há santo na rua.

Não há santos no governo do Estado.

Não há santo no Palácio do Planalto.

Não há santo no Judiciário.

Não há santo no Congresso.

Não há santo nas marchas contra corrupção.

Não há santo sequer na Igreja.

Santo, ao que consta, existe na lista de propinas da Odebrecht, e até mesmo ele, quando diante do morticínio, costuma esquivar-se: quem não reagiu está vivo.

Esse maniqueísmo barato que coloca santos e demônios em lados opostos do discurso (e das grades) é justamente o elemento que deixa em aberto “novos acidentes” quando são assim nomeados.

Aqui encontra-se, possivelmente, um nó dos nossos afetos políticos. Quando votamos, preferimos a santidade à inteligência, e os custos dessa opção é nossa própria humanidade (a de carne e osso). Caso contrário, saberíamos que mortes geram mais mortes, nunca paz.

“Ah, mas vai saber quantos assassinos havia entre os mortos”, gritam comentaristas alimentados pelo maniqueísmo barato. Mesmo que não houvesse um inocente sequer entre os mortos, um mísero condenado sem julgamento por acusação, quem sabe falsa?, de roubo de galinha sem acesso a advogado, o papel do Estado é justamente evitar que novos assassinatos ocorram.

E vez disso, o presídio de Manaus, ao que consta, era o território propício para o morticínio em um país onde, segundo levantamento da Folha de S.Paulo, um detento é morto a cada dia.

Enquanto caminhamos para a morte procurando com lupas quem merece ou não ser lembrado como santo, as condições para novas tragédias seguem abertas. Com elas, as dezenas, centenas de questões que imaginamos encarceradas por um sistema do qual também não queremos saber, entre elas por que um dos países que mais encarcera no mundo não é capaz de oferecer segurança para quem está preso e para quem está “solto”? Por que tantos presos à espera de julgamento? Por que tanta restrição a penas alternativas? Por que os presídios estão superlotados? Por que a iniciativa privada se apropriou de sua gestão? Quem vence a guerra às drogas? Por que alguns recebem tornozeleira eletrônica e vai morrer em paz e outros são mutilados por facções rivais? Qual a distância exata entre Justiça em caixa alta e justiça em caixa baixa?

Não temos sequer esboço de resposta a nenhuma dessas perguntas quando a palavra é estraçalhada de saída.

Mas, se nos esforçarmos um pouco, saberíamos que quanto mais adiamos o debate e terceirizamos as responsabilidades, literal ou metaforicamente, mais pessoas, não exatamente santas, estarão sujeitas à barbárie – inclusive os agentes escalados pelo Estado a assumir a linha de frente do tiroteio, vítimas do mesmo descalabro.

As facções precisam ser combatidas com todo rigor, mas não se pode ignorar que elas são também uma resposta a um sistema propício a massacres e onde condenamos antes de julgar e julgamos antes de saber.

Um país onde as instituições garantam, dentro ou fora das grandes, a proteção e garantia da dignidade prevista em lei, e as autoridades demonstrem sua responsabilidade diante dela, e não talento para dizer quem merece ou não viver em processos improvisados de beatificação, é um país com condições mínimas para debater a segurança de quem está dentro e quem está fora do presídio.

 

Yahoo

06/01/2017

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