Meninas menores de idade são dadas por famílias em “trocas de noivas” no Paquistão

Mohammad Ramzan não consegue nem ouvir nem falar, e ele tem a idade mental de uma criança. Mas ele sabia que sua esposa, Saima, era nova demais quando foi dada a ele como noiva.

Ramzan, de 36 anos, sorri, ávido para agradar, enquanto usa seus dedos para contar a idade da menina quando eles se casaram. Um, dois, três … até 13, e então ele para e olha para ela, aponta e balança a cabeça afirmativamente diversas vezes.

O pai da menina, Wazir Ahmed, diz que ela tinha 14 anos, e não 13, mas esse não é o ponto principal. O que importava era somente que ela tinha acabado de chegar à puberdade quando ele arranjou seu casamento como uma troca: sua filha pela irmã de Ramzan, que ele queria ter como segunda esposa.

Sua primeira esposa, a mãe de Saima, só havia lhe dado filhas, e ele esperava que sua segunda esposa pudesse ter um menino. Mas Sabeel não iria se casar até que seu irmão tivesse uma esposa para cuidar dele.

Ela seria uma noiva dada em troca por outra noiva.

Em regiões profundamente conservadoras como esta, no sul da província do Punjab, a prática tribal de trocar meninas entre famílias está tão enraizada que tem até um nome na língua urdu: Watta Satta, que significa “dar e receber”.

Uma menina pode ser dada a um homem para pagar uma dívida ou solucionar um conflito entre famílias. Ela pode ser forçada a se casar com um primo para manter seu dote na família, ou, como neste caso, pode ser forçada a se casar com um homem, com a perspectiva de dar a ele um herdeiro do sexo masculino.

Muitos acreditam que a religião islâmica instrui os pais a casarem suas filhas quando elas chegam à puberdade.

“Se isso não acontece, nossa sociedade pensa que os pais não cumpriram as suas obrigações religiosas,” diz Faisal Tangwani, coordenador regional da Comissão Independente de Direitos Humanos do Paquistão, localizada em Multan.

Ahmed vê a mão de Deus no casamento de sua filha com um homem com deficiência.

“Foi pela vontade de Deus que ele foi escolhido,” diz ele. “Este era o destino dela”.

Ahmed se senta dentro da casa de paredes de barro onde vive com suas duas esposas. Do lado de fora, cães abandonados passam pelo local em grupos de três ou quatro animais. Ahmed adverte que eles mordem.

Ele diz que o fato de que Ramzan tenha quase três vezes a idade de sua filha é irrelevante. No entanto, a idade mínima para se casar na região é de 16 anos, e em um movimento raro, a polícia investigou o casamento de Saima após ter recebido uma reclamação, possivelmente de algum parente envolvido em uma disputa com seu pai.

Ramzan e Ahmed foram presos por alguns dias, mas Saima testemunhou no tribunal afirmando que tinha 16 anos, e eles foram libertados. Ela conta que disse às autoridades que tinha 16 anos para proteger seu pai e seu marido.

No mundo de pobreza extrema de Saima, onde tradições tribais seculares se misturam a crenças religiosas, um ciclo paralisante afeta todos na família: um pai que anseia ter um filho homem para ajudar a sustentar a família; uma esposa que precisa ter este filho; uma filha que precisa se tornar mãe mesmo quando ainda é uma criança.

A mãe de Saima, Janaat, concorda com a decisão de casar suas filhas cedo. Ela diz que as meninas são uma dor de cabeça após chegarem à puberdade. Elas não podem ser deixadas em casa sozinhas por medo de atividades sexuais indesejadas – ou pior, por medo de que fujam de casa com um menino da sua escolha.

“Isso seria uma vergonha para nós. Nós não teríamos honra. Não. Quando elas chegam à puberdade, precisamos casá-las rapidamente,” diz ela. “Filhas são um fardo, mas os filhos, eles são os donos da casa.”

“Eu sinto vergonha por não ter um filho. Eu permiti que meu marido se casasse pela segunda vez,” ela conta.

A nova esposa de seu marido, Sabeel, diz que concordou em se casar com Ahmed por causa de seu irmão. Ela queria que ele tivesse uma esposa.

“Ninguém estava disposto a dar suas filhas ao meu irmão,” diz Sabeel.

Ramzan rapidamente estende a mão aos convidados que entram pela cortina esfarrapada e rasgada estendida na porta da frente de sua casa, escondida em um beco estreito e rodeada de esgoto a céu aberto.

Os pais idosos de Ramzan moram com ele. Seu pai raramente sai da cama, afirmando ter problemas para caminhar. Sua mãe pede esmolas da manhã até à noite, às vezes batendo de porta em porta, outras vezes posicionando-se no meio de uma rua empoeirada, com as mãos pedindo doações.

Assim como Ramzan, ela não consegue ouvir ou falar. Ela fraturou os quadris e um joelho. Ela gesticula tentando explicar o problema com o joelho.

Ramzan olha para Saima, com o cabelo escondido sob um véu e os grandes olhos marrons olhando para baixo.

“Eu não queria me casar com ela tão cedo. Eu disse na época, ‘Ela é nova demais’, mas todos disseram que eu deveria fazer isso,” ele conta fazendo uma série de gestos interpretados pelos que estão à sua volta. Ele posiciona a mão um pouco abaixo do peito, mostrando qual era a altura da menina quando eles se casaram.

Saima não fala muito, e suas respostas são sempre curtas.

“A irmã dele e meu pai se apaixonaram, e eles me trocaram por ela,” diz Saima.

“Sim, eu tenho medo do meu pai, mas cabe a ele decidir quando e com quem eu vou me casar.”

Ela se senta na cama com Ramzan. O marido toca muitas vezes o topo da cabeça da jovem.

Ele gesticula e explica que tem medo de que Saima o deixe um dia, e diz que Deus ficará infeliz se ela fizer isso. Saima engravidou pouco tempo depois de se casar com Ramzan, mas perdeu o bebê aos cinco meses de gestação. Ramzan faz gestos dizendo que quer que Saima tome algum remédio para engravidar novamente.

Saima diz que entende os gestos de Ramzan, mas é difícil saber. Muitas das traduções são feitas por sua sobrinha de 12 anos, Haseena, filha do primeiro casamento de Sabeel.

Haseena tinha 10 anos quando Saima se casou com seu tio Ramzan e sua mãe deixou a casa para morar com o novo marido.

Haseena ficou na casa com seu tio e seus avós idosos para cozinhar, limpar e fazer companhia a Saima. Ela até preparou o jantar de casamento dos dois.

“Depois do casamento, minha mãe pediu que eu saísse da escola e ficasse com Saima, pois ela ficaria sozinha em casa,” disse Haseena.

Haseena lembra que Saima parecia tão jovem que a família sentiu pena dela.

“Naquela idade, ela deveria estar brincando.”

De volta à antiga casa de Saima, sua irmã de 7 anos, Asma, anda por aí sem sapatos, com o cabelo coberto de poeira e sujeira. Asma já foi prometida a seu primo, que tem 10 anos de idade. Eles irão se casar quando ela atingir a puberdade.

 

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21/01/2016

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